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“Estou no SUS e escolho o SUS sempre”

Publicado em 3 de agosto de 2018

Ela fez o processo seletivo para agente comunitária de saúde sem levar muita fé: achava que era tudo “carta marcada”. Mas não é que passou? Foi essa a porta de entrada de Lurquídea Reis, de São Luís do Maranhão, na saúde. Não era ainda uma área com a qual ela tinha tanta afinidade: “Depois da seleção, fui fazer o treinamento e comecei a me identificar com o trabalho... E aos poucos comecei a realmente amar o que faço. A entender o que é ser ACS, qual o meu papel na minha microárea, o que posso fazer para minha comunidade ser mais bem assistida”, conta.

Ativa pra caramba, ela já mandou vários relatos para a mostra Saúde É Meu Lugar desde que nos conheceu, e acabou se tornando nossa mobilizadora (e põe mobilizadora nisso”) no Maranhão.

Quem conhece pessoalmente a Lurquídea não pode deixar de notar o quanto ela é animadíssima e conversadeira, mas ela garante que não foi sempre assim - e que a transformação veio com a profissão. “Na minha primeira visita domiciliar eu senti um grande impacto. Eu tinha muita vergonha de tudo, era muito tímida, não sabia se batia na porta da cliente, se chamava lá de fora… Eu fiquei lá sem conseguir bater na porta, até que ela abriu e deu de cara comigo. Aí fui conversando, socializando… Ser ACS me deu uma boa oportunidade para quebrar minha timidez”, revela.

Aí foi um caminho sem volta, né? Ela diz que é uma das agentes mais conhecidas, porque já mudou de casa muitas vezes e, com isso, foram mudando também as microáreas atendidas por ela.  E não é só nas visitas que ela conhece um mundo de gente, mas também em outra atividade da qual Lurquídea começou a participar com muita atenção: a luta para garantir melhores condições de trabalho para a categoria. Ela se filiou ao sindicato de ACS de São Luís e conta que várias vitórias foram alcançadas, como a contratação via CLT (antes, mesmo com processo seletivo, os agentes eram bolsistas). “Hoje a luta é para sermos estatutários”, diz.

Há outras lutas diárias. Ela conta que, quando começou como ACS, foi para uma equipe do Programa Saúde da Família (que mais tarde se tornou Estratégia) quase completa - só faltava dentista. Eles tinham uma unidade própria também. “Há alguns anos foram despejados e passados para uma unidade mista provisória - mas o provisório já dura mais que cinco anos. E agora somos somos do Programa de Agente Comunitário de Saúde, e não mais da Estratégia. Perdemos o médico, perdemos técnico de enfermagem, ficamos só ACS e enfermeros”, critica - em geral, deve acontecer o caminho contrário, o PACS servindo como transição para a ESF.

Lurquídea diz que a situação da unidade em termos materiais também piorou, e narra que muitas vezes a equipe faz vaquinhas para comprar insumos como luvas e papel, para tirar fotocópias...

Com nosso coordenador, Caco Xavier, após oficina de mobilização em Brasília

 

Nesses anos todos ela continuou estudando, se aperfeiçoando, correndo atrás: há vários anos, fez curso para auxiliar e em seguida para técnica de enfermagem - sem jamais deixar de ser ACS - e hoje está na graduação, também em Enfermagem. Se forma no ano que vem. “Me identifico muito com o cuidar do outro. Ser ACS mudou a minha vida: eu tinha só o 2o grau, agora no ano que vem vou me formar na faculdade. E quero ser enfermeira, focar nisso, me especializar depois, atuar nessa área”, diz.

Não tem intenção nenhuma de deixar o SUS. “Estou no SUS e escolho o SUS sempre. O que mais me motiva é saber que só peça fundamental dentro da atenção básica e da comunidade onde nasci e cresci, que posso levar mais informação para a comunidade, que não é só de clientes: eles são meus amigos, meus vizinhos, uma extensão da minha família. Há crianças que vi pequenas e hoje são adolescentes”, comenta.

Lurquídea, que já mandou tantas histórais pra gente como trabalhadora, dessa vez dá também um relato de usuária: “Sei que o SUS é extraordinário, que acolhe as pessoas. Sei disso como profissional e como usuária. Há pouco tempo mesmo tive um problema grave no intestino, fui para a UPA, fui atendida, fiz uma tomografia, peguei uma ambulância e fui todo o trajeto assistida por um técnico de enfermagem que conversava comigo e aferia minha pressão… Sem o SUS eu acho que poderia até ter morrido”, diz, emendando: “O SUS é perfeito no papel. Para ser ainda mais perfeito, só deveria ter mais verbas e mais atenção à qualificação dos profissionais, de sua humanização”.

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