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Ela e eu

Hoje foi a quarta visita para uma mulher que tem a minha idade, que não anda mais, não muda de posição sozinha e fica quase todo tempo do seu dia na cama. Ela tem contraturas nos braços e pernas. A gente chama assim quando, mesmo que se tente mobilizar, elas não cedem. Resistem.

Pela quarta vez, entrei na casa, pedi licença, entrei no quarto pequeno. Estava mais ventilado que das outras vezes, com um lençol fazendo as vezes de cortina. Os remédios, junto das receitas e de um copo de iogurte, ficavam do lado da cabeceira.

Cheguei falando alto, dando bom dia, de um jeito meio "animadona". Eu lá, com meu lenço cor de rosa no pescoço, calça dobrada na barra, sapatilha fazendo um estilo e agenda na mão, anotando tudo e nada.

Quando cheguei perto da cama ela olhou lá no fundo do meu olho. Bem no fundo.

Fiquei nervosa e comecei a perguntar pra filha se estavam movimentando, virando, falei pra ela também, tagarelando sem parar que precisava mexer braço, perna, o quanto conseguisse, mas precisava mexer.

Por que mesmo?

Naquela hora do olho no olho eu nem sabia mais o que tava fazendo ali, pra quê mesmo essas orientações que pareciam não fazer sentido?

Naquela hora do olho no olho busquei rápido na minha mente o que eu sabia sobre pacientes acamados, dependentes, contraturados. Vasculhei os arquivos das pós, dos livros, das aulas. E não achei nada.

Naquela hora do olho no olho, eu a vi tentando entender o que a fisioterapeuta animadona, que anda, fala, recebe salário todo fim do mês e combina o bordado do jaleco com a cor do esmalte, poderia saber sobre o que ela estava passando.

E eu senti que ela quis me dizer, com raiva, muita coisa, mas silenciou. Em contrapartida eu, atrapalhada, falei sem parar. E por insegurança, não a ouvi.

Naquela hora do olho no olho pensei em nós duas ali, a gente tinha a mesma idade. Podia ser eu. E pensei se teria essa resignação. Com o olhar e em silêncio, ela me transmitiu uma verdade clara, que poucas vezes vi nessa gente por aí que fala como eu, sem parar.

Ainda não sei o que fazer.

Acho que preciso de uma quinta visita, com mais olho no olho, só que silêncio dessa vez, pra ver se consigo aprender um pouco mais sobre ser resistente (até contraturada) e verdadeira nessa vida. Talvez possa orientá-la, honestamente, sobre algo que faça sentido pra ela. E que já entendi: não é só mexer, virar, mexer.

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